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"Dia Internacional dos Museus: “O futuro dos Museus: recuperar e reimaginar”

“Portas que se fecham… Portas que se abrem…

Apesar de a Direção Regional de Cultura do Algarve não ter museus sob a sua tutela, os monumentos que lhe estão afetos detêm algum património museológico. Neste dia, destacamos um desses exemplares:

Poucos serão os que se recordam do portão original da Fortaleza de Sagres, uma das poucas peças museológicas que esteve, ainda durante algum tempo, em exibição no centro expositivo deste monumento nacional, até meados de 2006. Este portão, cuja fotografia, datada de 1957, deixa vislumbrar um pouco a sua configuração, apresenta uma história interessante e peculiar para contar, e que vem ilustar a evolução das mentalidades, dos valores e da consciência cívica e de preservação patrimonial.

Durante as obras levadas a cabo neste lugar, no final dos anos 50, a entrada da Fortaleza de Sagres foi uma das zonas intervencionadas, tendo sido o portão de madeira substituído pelo atual; e, como as fotografias deixam perceber, o arco do pórtico da entrada foi ligeiramente elevado e alargado, para facilitar a circulação de viaturas.

O empreiteiro responsável pela obra, o senhor António Serra, consciente do valor desta peça (portão que, depois de retirado, não teria qualquer utilidade prática), datada da mesma altura da atual fortificação (1793 é data da conclusão da construção de novo sistema fortificado), guardou-a consigo, durante mais de 40 anos, tendo-a devolvido a este monumento já no início deste século (2003).

Um simples portão de madeira e metal, com mais de 220 anos, encerra histórias que são as que queremos imaginar e reinventar: um portão que daria acesso a uma fortaleza, onde apenas alguns militares teriam entrada, e que, mais tarde, perderia a sua importância funcional, ganhando uma nova relevância pela difusão do “mito da escola náutica”, fazendo espoletar o crescente interesse e curiosidade sobre este território.

Com a edição da revista Panorama, em 1842/1843, surgem os primeiros visitantes civis1, que querem conhecer o lugar associado à origem de um passado “glorioso e epopeico”. Este portão passa a tornar acessível um lugar que sempre esteve fechado, primeiro de forma pontual, mais tarde, e cada vez mais, recebendo com alguma frequência, curiosos e turistas. Já no decorrer do século XX, com uma afluência cada vez maior de visitantes, este portão que inicialmente estaria quase sempre fechado, passa a abrir-se cada vez mais frequentemente.

Atualmente, a Fortaleza de Sagres, com acessos renovados, tem portas que se abrem a um número cada vez maior de pessoas, de diferentes geografias, com diferentes formas de ver, com diferentes motivações e necessidades. Já não estão encantadas com o “mito da escola de Sagres”; são outros os seus motivos de inspiração…

Porque o futuro dos museus e dos espaços patrimoniais passa, também e cada vez mais, por os reimaginar e os colocar em diálogo com os valores da atualidade, importa construir novos discursos patrimoniais, por exemplo, através das pequenas histórias que cada objeto pode contar.

Atualmente, este portão não encerra lugares, nem exclui pessoas, mas encerra histórias, muitas histórias, que farão parte do futuro Centro Expositivo da Fortaleza de Sagres.”

18 de maio de 2021

Raquel Roxo (DRCALG)

 

1 Magalhães, N. (2008), Algarve, Castelos, Cercas e Fortaleza, As Muralhas como património histórico, Letras Várias, Edições e Arte, p.261.

Fotografias (datadas de 1957, 1958 e 1959) cedidas pela DGPC - Direção Geral do Património Cultural - e DADB/FS - Divisão de Arquivo, Documentação e Bibliotecas/Forte de Sacavém.